É noite. Gritos, assobios, o barulho ensurdecedor de uma multidão em êxtase, ansiosa pelo início. Mãos fortes agarram os ombros de Rosa. Atônita, confusa, ela mal consegue distinguir as cortinas à sua frente. Elas parecem irreais, agitando-se ao vento e aos berros da plateia delirante.
Os dedos cravam-se em sua pele, e uma voz sussurra em seu ouvido: "Eles te amam. Dê a eles o que eles querem!" Antes que possa reagir, Rosa sente seu corpo ser empurrado em direção aos gritos. As cortinas fedem a mofo e umidade, e a fumaça das luzes a envolve. Tenta se agarrar, mas é inútil. Seus pés descalços arrastam-se para o palco, como se pertencessem a outra pessoa.
De cima, observa seu próprio corpo: uma jovem de vestido branco, olhos vidrados, caminhando em direção ao abismo. Sua alma flutua, impotente, enquanto o que resta de sua humanidade é levado pela correnteza.
Pesadas grades de aço caem atrás dela, separando-a do mundo que conhece. Do outro lado, as grades que contêm a multidão começam a subir. Mãos sujas, peludas, calejadas, estremecem nas barras de ferro. Eles empurram, batem, gritam. Esperaram demais. Cada um quer ser o primeiro.
"Valeu cada centavo!" berra um homem com cicatrizes no rosto, o mais próximo da grade. "Ninguém toca nela antes de mim!"
Lágrimas escorrem pelo rosto de Rosa, mas ela não sabe se chora por medo, por dor ou por algo que já não consegue lembrar. As drogas apagaram tudo, exceto a visão de seu corpo, agora um fantoche nas mãos dos outros. Ela cai no chão, o vestido branco manchado de vermelho. Não sente os dentes quebrados, nem os ossos que se dobram sob o peso deles. Só vê o céu escuro acima, enquanto os gritos se fundem em um único som, distante e irrelevante.
Continua...
Comentários
Postar um comentário