Pequenas coisas

 Pequenas coisas


Sábado de manhã. Está frio, muito frio. No ano passado, não lembro de fazer tanto frio nessa época. E hoje, particularmente, quero continuar na cama até mais tarde. Como é distante essa diferença entre o que a gente deseja e o que de fato tem. Em um sábado frio, nada melhor do que não ter nada para fazer pela manhã. Mas hoje, tenho um compromisso que me faz afastar a preguiça e me impulsiona a levantar. Aliás, é a minha responsabilidade de pai que me movimenta. — Tudo bem, eu preciso mesmo sair — digo para mim mesmo e pulo da cama.

Mas está tão frio... não consigo parar de pensar no quanto isso me incomoda. 

Lavo o rosto na pia do banheiro. A água gelada, saindo da torneira, parece querer grudar na pele e gelar até os ossos. Enquanto me visto, olho para a cama. Não sinto vontade de voltar a deitar, mas meus olhos vão direto para o lugar onde minha esposa costumava estar. Sento na beirada, como se ela ainda estivesse ali. Um sentimento de tristeza me atravessa ao lembrar dela.

Todas as manhãs, ela me acordava e o café já estava pronto. Era um mau hábito que ela tinha: acordar cedo. Ou eu que acordava tarde? Nunca gostei de acordar cedo. Não importa... eu gostava de ser acordado por ela. Agora, esse mau hábito de acordar cedo e fazer café é minha responsabilidade.

Às vezes, sonho. Ela está na cozinha, escuto seus sons, o barulho da água sendo despejada sobre o pó. E o cheiro… uma alegria imensa me invade... apenas para acordar e ver a dura realidade: nunca mais serei acordado por ela.

Na cozinha, preparo um café. Coloco um copo, puro, para mim. Enquanto bebo lentamente, observando o vapor subir, penso novamente em minha esposa. Ela não está mais aqui. Me pergunto se algum dia ela esteve... será que não foi tudo um sonho? Toda a alegria, a movimentação, a agitação que havia aqui... para onde foi? Hoje sinto apenas o frio e o silêncio. Nem os gatos, que ela adorava tanto, esboçam qualquer animação. Eles sentem o frio também.

Faço um misto-quente e coloco na sanduicheira. Enquanto aquece, vou acordar Sophia. Minha filha, de seis anos, ainda tem dificuldades para entender que sua mãe não a deixou.

Enquanto o lanche esquenta, coloco o café em uma caneca pequena para Sophia, com muito leite e um pouco de açúcar, como ela gosta. Li em algum lugar que não faz bem dar café para crianças. Ou será que estou imaginando isso? Em todo caso, ela não beberia outra coisa pela manhã. Aproveito e encho minha caneca novamente.

Sento à mesa, e ela aparece, arrastando o seu ursinho pelo braço, os cabelos bagunçados.

— Bom dia, filha — digo, empurrando a caneca para ela.

— Bom dia, papai — sua voz soa como um sussurro, quase como se viesse de outro cômodo. Ela sobe na cadeira, o ursinho começa a cair no chão. Ela o pega rápido, como se temesse perdê-lo. Não que isso fosse acontecer.

— Cuidado com o ursinho, ele não gosta de chão frio — brinco, esboçando um sorriso, apenas para não ficar em silêncio.

Ela ri, baixinho.

— O chão não está frio, papai — ela diz e sopra o líquido antes de beber um gole. Sua mão treme e deixa a caneca cair. Estico o braço e tento pegar, mas a caneca está sobre a mesa, no mesmo lugar onde coloquei para ela. Fico com o braço a meia distância, hesitante e permaneço alguns segundos com ele no ar.

"O que foi isso? Foi só minha imaginação?", eu penso. "Acho que ainda não acordei completamente".

— O que está fazendo? — ela pergunta. 

— Ah... nada, eu acho. Pensei ter visto algo, mas foi só imaginação — digo, com um sorriso, puxando meu braço de volta.

— Papai, por que você toma café preto? É tão amargo! Por que não toma igual ao meu? — ela diz.

— É amargo, mas me mantém acordado. E eu aprendi a gostar assim — respondo, olhando para o vapor de minha caneca. — O seu está bom?

— Tá! O meu é mais gostoso que o seu, papai — ela sorri, pondo as duas mãos ao redor da caneca, igual à mãe costumava fazer, mas não a toca.

A lembrança da mãe aperta minha garganta.

— Mamãe tá com a vovó agora? — ela pergunta, abraçando o ursinho.

— Está, querida. Fazendo café pra vovó, como fazia pra gente — digo, com a voz falhando.

Ela assente, mas seus olhos não encontram os meus. Coloco o misto-quente no prato.

— Corta no meio pra mim? — ela pede.

Corto em formato de triângulo e coloco em frente a ela.

— Coma, senão vai esfriar — digo, bagunçando o ar onde o cabelo dela estaria. — Vou separar as roupas que você vai vestir e deixar na sua cama. Assim que terminar, precisa se arrumar para sairmos.

— Tá bom, papai — ela responde.

Saio da cozinha e sinto que o frio está aumentando. Vou até o quarto de Sophia e encontro sua cama perfeitamente arrumada. Alguma coisa me incomoda ao ver isso... o que é? Por que esse desconforto no peito?

Depois, enquanto lavo a louça do café, ouço Sophia na sala, cantarolando uma musiquinha que a mãe ensinou. Ela não comeu. Olho pela porta entreaberta. Está sentada no tapete, o ursinho no colo. Alguns brinquedos parecem que não são tocados há meses. Ou anos? Não sei mais... apenas não ouso tocar neles também. Lembro dela brincando com minha esposa naquela sala, as duas rindo, o sol entrando pela janela. Agora, a luz é cinza, e o canto de Sophia soa distante, quase como uma lembrança. Esfrego a esponja com mais força, tentando não pensar no que sei... no que não quero admitir.

— Já está pronta, Sophia? Temos que ir.

— Quase, papai. Vou ao banheiro primeiro.

— Não demore, sua consulta é às nove.

— Às nove, papai?

— Sim, às nove, querida.

— Quando é às nove, papai?

— Quando? É... bem, daqui a pouco. Sim, daqui a pouco é nove horas. E temos que chegar na clínica antes das nove.

— Tá bom, papai. Já estou quase pronta. Só mais um pouquinho.

— Só mais um pouquinho... — repito, meio rindo. — Não precisamos ter pressa, ainda é cedo.


Sophia veste um casaco claro, os cabelos presos atrás da cabeça, formando um rabo de cavalo. Ainda está um pouco bagunçado, mas nunca fui bom em arrumar o cabelo dela. Está segurando o ursinho de pelúcia, um pouco sujo, nos braços quando entra no carro. Coloco o cinto de segurança nela, que mesmo no assento elevado, não fica bem ajustado.

Olho pelo retrovisor e vejo a pelúcia em seus pequenos braços. Não consigo evitar pensar que foi o último presente que ela ganhou da mãe. Um sentimento melancólico invade meu peito. Suspiro e deixo passar. Não posso me prender a esse tipo de sentimento perto dela. Sophia sentiu muito quando a mãe nos deixou. E sei que ficar deprimido agora não ajuda... nem a ela, nem a mim. Por isso, tento sempre aparentar estar bem perto dela.

No caminho, enquanto dirijo pelas ruas quase vazias, ela mantém o olhar atento pela janela.

Começamos a ver as primeiras faixas, algumas pessoas e o amarelo predominando nas calçadas e esquinas. Alguns seguram bandeiras improvisadas, outras têm cartazes mal escritos, com letras tortas e mensagens confusas, ora em letras garrafais, ora em canetinha apagada.

— Papai, o que aquelas pessoas estão fazendo ali? — pergunta, apontando para um grupo que se amontoa um pouco à frente.

Muitas pessoas estão manifestando seu descontentamento, mesmo no frio e sendo sábado de manhã.

Já faz alguns dias que estão reunidas naquele local, expondo a indignação que disseram para elas sentirem. Havia chovido na noite anterior, e a umidade impregnando o ar transmite uma estranha sensação de desconforto. Os manifestantes, expressivamente descontentes, não se importam. Parecem mais estar em festa, e isso torna a situação ainda mais estranha. A alegria de estarem reunidos em um objetivo comum se sobrepõe à indignação que disseram que deveriam sentir e que tentam expressar. Estão ali, dispostos a dar a vida pelo bem comum de apenas uma pessoa: o líder do movimento.

Como lhes foi dito para ficarem indignadas, o sentimento não é necessariamente real. Por isso, sobra ânimo para confraternizar, fazerem planos e amaldiçoarem os que são contra e riem deles. Planejam fazer tudo o que puderem para alcançar o objetivo que lhes disseram que deveria ser alcançado a qualquer custo. Até quando continuarão com isso? E será que alguém se importa realmente com eles neste frio? O líder com certeza não.

Há muita comida, carne assada, bebidas, música. Carros e caminhões fecham parte da rua. As pessoas se reúnem, discursam, bradam seus direitos de manifestar e exigem que sejam atendidas. Bom, o direito de exigir e manifestar… isso eles já tem, de qualquer forma.

Passo próximo a eles, dirigindo meu carro. Sentada no banco de trás e agarrada ao ursinho de pelúcia velho e sujo, Sophia pergunta novamente:

— Papai, o que eles estão fazendo ali?

— Não tenho muita certeza, filha. E tenho a impressão de que eles mesmos não sabem — respondo, pensativo.

Devido à manifestação que começou alguns dias atrás e se arrasta indeterminadamente, o trânsito no local está parcialmente fechado. Enquanto espero o fluxo de carros andar, observo a multidão reunida.

— Eles parecem felizes — diz Sophia.

— Sim, de certa forma estão parecendo felizes por estarem ali. O que é estranho, já que alegam estar indignados. Bom... eu fico triste por eles.

— Triste, papai?

— É... triste não define bem o que estou sentindo... Não é tristeza. O que queria dizer era algo como... hum... deixa eu ver... pena. É, sinto pena deles. No futuro, eles serão taxados de malucos e serão motivo de piadas. Tenho quase certeza disso.

— O que aquele senhorzinho está fazendo? — pergunta Sophia.

— Deixa eu ver... hum... ele está fazendo uma marcha — tento explicar, mas eu mesmo fico em dúvida do que ele realmente está fazendo.

— Uma o quê? — ela indaga.

— Sabe aquela musiquinha “Marcha Soldado”?

— Sei! "Marcha soldado, cabeça de papel" — diz ela, começando a cantar e rir ao mesmo tempo.

— Sim, ele está tentando fazer algo parecido com isso.

— Todos se vestem iguais, papai. São divertidos, todos têm a camisa da mesma cor — observa Sophia.

— Tem um motivo para estarem todos assim. Quando as pessoas se sentem parte de algo, de um grupo, criam algo em comum que as identifica. A camisa é como um símbolo, uma maneira de mostrar que estão juntos por uma mesma causa, com um mesmo propósito. Às vezes é uma cor, uma música, um gesto... Tudo para lembrar que, mesmo sendo pessoas diferentes, naquele momento estão unidas por uma ideia maior.

Em outros tempos, eu estaria ali com eles. Se não fosse a sua avó ter morrido no início da pandemia... e se o líder deles não tivesse fingido que nada estava acontecendo... talvez eu nunca tivesse parado para repensar a forma como estava enxergando as coisas.

— A camisa é bonita — diz Sophia.

— É sim, filha. Eu tenho uma igual também... mas acho que não usarei novamente. Ao menos, não tão cedo — solto um longo suspiro.

— O homem do caminhão se veste igual a eles — reflete Sophia.

— Homem do caminhão...? Quem?

— Aquele que apareceu na televisão, papai. Que estava gritando na frente do caminhão. — E solta um riso. — Ele era tão bobo.

— Ah! Sim... entendi... — faço uma pequena pausa antes de continuar. — Eles compartilham da mesma indignação.

— Eles são todos bobos, papai? — pergunta Sophia.

— Não, filha, eles não são bobos. Até mesmo as pessoas mais inteligentes, quando acreditam cegamente em algo, se tornam fáceis de serem manipuladas.

— O que é "mão puladas"?

— Não, filha, não é "mão puladas", o correto é "manipuladas". Imagine que você quer muito um doce, e eu prometo te dar um se você arrumar o quarto. Você arruma, mas aí eu digo que não tem doce nenhum. Você fez algo que eu queria e, no fim, foi enganada. É algo parecido com isso, mas sem a promessa do doce.

— Isso é trapaça! — Sophia responde, indignada, balançando o ursinho.

— Exatamente! Manipular é como uma trapaça. Alguém conta uma história, ou repete uma coisa muitas vezes, pra fazer você acreditar que é verdade, mesmo que não seja. Ela te convence que algo é super importante e necessário, mas só porque essa pessoa quer — tento explicar, me perguntando se ela vai entender.

— Ah... igual quando a mamãe dizia pro senhor lavar a louça. Aí você dizia que não gostava e ela te fazia lavar dizendo que iria ser recompensado depois?

— Ei! Como você se lembra disso? Aliás, você deveria se lembrar disso? Não... esqueça essas conversas que tive com sua mãe. E não... não é a mesma coisa. É bem diferente, na verdade — respondo. — E eu lavava, mesmo não querendo, porque gostava, mocinha, não porque ela mandava — digo, tentando soar engraçado e solto uma pequena risada.

— Mentiroso! Você ainda não gosta, nem um pouquinho. Eu sempre escuto você reclamando quando está na cozinha — exclama Sophia, agitando o ursinho novamente.

— É... você tem razão — digo, ainda rindo. — Mas estou aprendendo a gostar, sabia?

— Papai, por que o senhor não está ali com eles? — ela pergunta. A atenção de Sophia muda muito rápido de uma coisa para outra. Nem sempre é ruim essa forma de agir que ela tem, mas me pega desprevenido, toda vez, e demoro para responder.

— Por você, Sophia. Por causa de você — eu digo.

O trânsito começa a escoar. Passo pelos manifestantes autoproclamados indignados, alheios aos questionamentos da pequena Sophia, e seguimos nosso caminho. Olho uma última vez pelo retrovisor e suspiro... num misto de pena e graça do que vejo. Nos distanciamos cada vez mais, até nada lembrar a pequena multidão de manifestantes.


Na recepção, um telefone toca. Uma, duas, três vezes. A recepcionista atende, sua voz soando carismática ao dizer "bom dia". Não é um bom dia, eu penso. Está frio demais para ser um dia bom. Olho para o relógio na parede à minha frente. Ele marca oito horas e cinquenta e seis minutos.

Me levanto e vou até uma pequena mesa, no canto oposto da entrada. Há uma pilha de copos descartáveis transparentes. Pego um. Duas garrafas térmicas estão sobre a mesa: em uma está escrito, com letras garrafais e impressas, "CHÁ"; na outra, com letra corrida e bonita, um papel preso com fita larga transparente diz: "Café". Escolho esta última. 

— Chá é bom —  eu murmuro, quase como um pensamento solto. — Mas prefiro café.

— Oi? Disse alguma coisa? — pergunta uma senhora idosa, sentada na poltrona ao lado da mesa. Seu olhar, fixo em mim, com uma expressão meio preocupada.

— Desculpa... estava falando sozinho. Disse que prefiro café ao invés de chá — respondo, meio envergonhado.

— Você está bem? Faz uns dez minutos que cheguei e você já estava parado aí, rapazinho — ela diz, franzindo o cenho de uma forma que me incomoda.

—  Dez minutos? Sério?! Eu não percebi. — respondo, desviando o olhar.

"Não, não faz dez minutos", penso. "Ou faz? Já não sei mais. E quem é essa senhora? Por que se preocupar com algo assim? Não gostei da forma que estava me olhando."

Volto a me sentar no mesmo lugar onde estava. Não deixo de notar que as poltronas são muito confortáveis. Por algum motivo, isso me faz sorrir, um sorriso pequeno, quase involuntário.

Olho de novo para o relógio na parede. Agora ele marca nove horas e treze minutos.

Nove horas e treze minutos? Por que passou tanto tempo? Eu apenas me levantei e peguei um copo de café. Será que a senhora está com razão? Realmente fiquei parado tanto tempo ali?

O relógio não parece quebrado.

Confirmo o horário no celular. Antigamente eu usava um relógio de pulso, mas já faz anos que o deixei no fundo de alguma gaveta e nunca mais o vi.

O café não está ruim. Mas, ainda assim... não me esquenta. O frio continua me incomodando.

A clínica tem um corredor com várias portas. Sophia está na terceira sala, e posso ver a porta daqui. Quando ela se abrir, Sophia sairá, vai olhar em minha direção, acenar, sorrir... e correr para mim. Como sempre faz.

Já foram quantas vezes, nesses últimos anos? Não me lembro mais.

E se hoje for diferente? E se ela não sair por aquela porta? Ela realmente está lá... ou sou eu quem está esperando para ser chamado? Pode ser que a doutora venha até mim e diga que Sophia não é real. Que não tenho uma filha. Que... tudo isso é só um mecanismo para eu suportar a ausência da minha esposa.

O que eu faria sem a Sophia para me manter lúcido, depois que ela se foi? Não tenho mais ninguém além dela. Não mais.

Termino o café e me levanto para jogar o copo no lixo. Vou em direção ao banheiro e entro. Está vazio. "É óbvio", penso. "É sábado de manhã, quem sai de casa em um sábado de manhã? Ninguém que esteja bem, eu acredito."

Ligo a torneira. É uma daquelas com temporizador: a água jorra por alguns segundos e para. Aperto novamente, deixando a água passar pelas minhas mãos.

Repito o movimento mais uma, duas, três vezes. Deixo a água escorrer pela pele, encharcando minhas mãos.

Percebo que ela não está gelada.

— Está morna. Sim, a água está morna — falo, quase gritando no banheiro.

Se alguém me ouvir, vão pensar que estou enlouquecendo.

— Que desperdício de água — murmuro, me recompondo.

Olho no espelho. Meu reflexo é pálido, apático, magro. Meus cabelos grandes e desgrenhados. As rugas ao redor dos olhos sonolentos e fundos. A barba por fazer e olheiras profundas. Fixo o olhar nos meus próprios olhos. Respiro profundamente.

A água já parou de jorrar. Minhas mãos molhadas se apoiam na pia. Firmes. Esqueléticas. Como se me ajudassem a permanecer de pé.

— Por que ela nos deixou? — pergunto, olhando nos meus próprios olhos refletidos.

Mas não tenho uma resposta. Sinto um arrepio. Da cabeça aos pés. Não é o meu reflexo que vejo no espelho. É ela. Minha esposa.

Ela está em nossa casa, brincando com Sophia. As duas estão rindo, estão felizes... e eu… onde estou?

Estou aqui, outra vez, no reflexo do banheiro.

E está frio. Muito frio.


Retornamos pelo mesmo caminho. Sophia continua atenta ao percurso. Seus olhos parecem querer absorver cada detalhe da paisagem. Mas não há muita beleza em uma cidade pequena. Exceto, talvez, pelas cores diversas que cobrem as paredes de concreto.

Estou aqui há tanto tempo que já não consigo mais ver beleza em lugar nenhum.

Não... não é isso. Depois que ela se foi... foi depois disso que tudo perdeu a graça.

Um ou outro cachorro é apontado por Sophia. Ora dentro dos quintais, ora cães abandonados nas calçadas. Estes últimos, visivelmente famintos, mas Sophia apenas os aponta e diz:

— Olha, papai, mais um cãozinho.

Ela deve estar contando-os.

Passamos novamente pelos manifestantes.

Tudo está como antes. O céu segue nublado e escuro, como se a qualquer momento pudesse desabar uma nova chuva.

Porém... agora há algo mais.

Sinto o cheiro de gordura queimada, misturado ao ar úmido da manhã.

— Que cheiro bom... é de churrasco? — pergunta Sophia, com um sorriso leve.

— Sim... — respondo, com um meio sorriso cansado. — Eles podem estar com frio, mas fome... isso eles não passam.

— Que bom. Ninguém deveria passar fome — ela diz, com uma seriedade que não combina com seus seis anos. Por um instante, sua voz parece a de uma mulher muito mais velha.

— Sim, filha. Ninguém deveria — digo, olhando para ela pelo retrovisor. Nossos olhos se cruzam.

Eu sorrio, antes de voltar a atenção para a direção.

Os olhos de Sophia... são iguais aos da mãe dela.

— A mamãe sente fome onde ela está, papai? — Sophia pergunta de repente.

Respiro fundo. As palavras apertam minha garganta como um cão raivoso. Mordem por dentro, me travando. Elas não saem.

Sinto os olhos arderem.

— Ela sente, papai? — insiste Sophia.

Por que ela faz essas perguntas em momentos como esse?

Não quero pensar nela... não desse jeito... Não agora.

— Não, minha filha. Não se preocupe. Ela não sente fome onde está — digo, com a voz arranhada, quase um sussurro.

— Onde ela está, papai? — ela pergunta de novo, os olhos fixos no vidro da janela.

Olho para o céu cinzento. Uma tristeza funda, escura, pesada... esmagando meu peito. 

Onde ela está? Eu penso. Onde ela realmente está?

Enquanto penso em como deveria responder, algumas gotas de chuva começam a cair no para-brisa.

— Não sabe, papai? — repete Sophia.

— Ela está em um lugar melhor que aqui, Sophia... com certeza é melhor que aqui — respondo, sem muita convicção. Mas é o melhor que consigo.

Sophia avista alguns cães em meio aos manifestantes e, para meu alívio, muda de assunto.

— Olha, papai! Tem cãezinhos ali com eles — diz ela, animada, apontando.

— Eles são “manulefantes” também? — pergunta.

— Manifestantes, querida. Manifestantes é a palavra certa.

— Manifestantes — ela repete, com um sorriso satisfeito por ter acertado.

— Isso mesmo. E não... eles não estão ali por isso — digo, soltando um leve riso.

Olho na direção que ela apontou. Dois cachorros de rua. Farejam o chão, buscando qualquer resto que alguém possa ter deixado cair. Pobres animais... provavelmente alguém dará algo para eles comerem. Mas não será aqui.

Eles parecem saber onde procurar. Não estão tão magros. Devem conhecer cantos melhores do que entre os manifestantes que se alimentam sem os notar.

A chuva engrossa um pouco. O cheiro de carne queimada mistura-se ao asfalto molhado... até desaparecer completamente, quando fecho os vidros das portas.


Sigo dirigindo... devagar. As janelas do carro fechadas não impedem o som da chuva, nem o frio de entrar.

Lembro que ainda não comi nada... apenas tomei um pouco de café em casa e na clínica.

— Sophia, quer comer alguma coisa antes de voltarmos? — pergunto.

No fundo... só penso em chegar logo em casa.

Ela não responde.

Olho pelo retrovisor e vejo o ursinho recostado no banco.

Ele está lá, imóvel, do jeito que foi deixado há muito tempo.


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