A regra do jogo
Não conto histórias divertidas, não sei conversar, não faço ninguém rir.
Não tenho um bom emprego, não tenho uma profissão, não tenho nada.
A única coisa que faço bem é me lamentar — e, na verdade, nem nisso sou bom, porque minhas lamentações ficam só comigo; meus textos ninguém lê.
Não tenho carrão, não tenho casa, não tenho dinheiro, não faço viagens.
Sou um completo Zé ninguém.
Como vou competir? Como posso sequer pensar em competir com alguém por ela?
Até tentei, confesso.
Contei piadas para fazê-la rir — ela não riu.
Falei coisas inteligentes e interessantes para que me notasse — ela não notou.
Fiz questão de deixá-la perceber que eu gostava dela — e ela só se afastou ainda mais.
Então cedi à realidade. Sei que é um sonho impossível.
Foi um duro golpe ver ela olhando para outro da mesma forma que eu olho para ela.
Eu não queria desistir. Não queria acreditar.
Ela é importante para mim. Eu gosto dela.
O triste é aceitar que ela não me quer na vida dela — e não há nada que eu possa fazer.
Não sou invasivo, não sou stalker, não sou o tipo que insiste depois de ouvir um “não”.
Mas ela nunca disse “não”. Apenas me ignorou. É quase a mesma coisa, eu sei... mas isso deixava uma pontinha de esperança. Um “vai que ela me nota?”.
E ela nunca notou.
Às vezes nossos olhos se cruzavam; um sorriso surgia, meio forçado, mas surgia.
Isso me iludia cada vez mais.
Compreendo que ela tem a própria vida, escolhas, desejos.
E eu não sou nada além de alguém que cruzou o caminho dela por acaso.
Não faço parte dos planos dela.
Para mim, porém, ela tem sido tudo: minha motivação, minha alegria e, também, a razão pela qual chorei em dor imensa e agoniante por causa da rejeição velada.
Parafraseando os Racionais: “não existe nada pior que a dor causada pelo espinho cruel da flor que a gente ama.”
E então, lá estava ela.
No mesmo evento que eu.
A primeira estocada: ela se recusou a sentar do meu lado.
O pior: nem me olhou.
Fim do evento. O pessoal reunido.
Cheguei até eles para dizer um “oi”, conversar, aquelas trivialidades.
Todos rindo, conversando.
E ela não me olhava.
Manteve-se fria comigo, propositalmente.
A segunda estocada.
Acho que forcei a barra.
Sei que fui insistente no meu jeito de olhar, mas é mais forte do que eu.
Não consigo controlar o que sinto.
A terceira estocada, com direito a torcer a faca:
Ela saiu com outro.
Os dois sorrindo, felizes.
Mesma profissão, mesma formação...
E então percebi: o jogo estava perdido. Eu era — sou — um completo fracassado.
Não é ciúme.
É frustração.
Simples, pura frustração.
Eu não queria aceitar que não tinha nada de atraente para tentar conquistar o coração dela.
Quis acreditar que o sol brilharia para mim.
Mas Tim já cantava a regra do jogo há muito tempo.
Recolhi minha insignificância, me despedi do pessoal e fui embora.
Confesso que olhei para ela enquanto saía. Duas vezes, para ser mais exato.
Hoje eu não ri.
Nem um pouco.
Comentários
Postar um comentário