INSALUBRE
Ando muito cansado nos últimos dias e perdi muito peso. Não sei se é a mudança de clima, que está gradualmente esfriando, ou se é porque não tenho me alimentado. A comida não me apetece mais, o que me faz pensar que o clima não tem muito efeito em como estou me sentindo.
Já tive crises de compulsão alimentar e, devido a isso, me tornei gordo demais, prejudicando minha saúde física e mental. É estranho o que está acontecendo agora. Mesmo sentindo fome, não desejo comer. Ouvi certa vez que somos os únicos seres que fazem isso; os outros animais comem quando estão famintos, mas não estou bem seguro disso. Talvez, quando a saúde não está plena, seja assim para todos os seres.
Não sinto fome, mas me sinto muito triste. Há muito tempo não me sentia assim. Já havia vencido a depressão e perdi todo o potencial da minha juventude por causa dela. A batalha foi difícil, mas continuei em pé e segui em frente. Me movimentar foi importante, e preenchi meus dias com atividades que exigiam muito esforço e pouca necessidade de pensamentos. Afastar-se da própria mente é crucial, e a dor física é mais suportável.
Mas agora sinto que fui enganado. Tenho a impressão de que a depressão esperou pacientemente, escondida em algum canto escuro da minha existência, o momento certo para me derrubar. E conseguiu. Não sou jovem como antes, nem forte como antes. Nunca precisei de ajuda, e a solidão não me incomodava. Agora estou mais sozinho do que nunca e não tenho por quem gritar socorro. É estranha essa sensação de solidão: às vezes reconfortante, às vezes angustiante. O mais estranho é que é uma solidão mental, pois estou cercado de pessoas barulhentas o tempo todo, mas sempre me sinto sozinho.
Desejei apenas uma companhia nos últimos dias, mas ela foi o estopim de tudo isso. Não estava pronto para a rejeição, não dessa vez, não dela. É sempre assim, não é? Sempre por alguém, sempre por amor. O amor é uma das melhores e também uma das piores coisas que podemos experimentar. Uma droga extremamente excitante e perigosa. Os efeitos colaterais são devastadores e já ceifaram mais vidas do que se pode mensurar. Acho que chega disso para mim.
O cansaço que estou sentindo sussurra em meus ouvidos para desistir e me render. Não vale a pena lutar. Cheguei longe demais e não encontrei nada. Talvez seja uma mensagem me dizendo que não há nada aqui para mim, ou pode ser, simplesmente, que eu esteja no lugar errado. Não importa, não tenho forças para ir a nenhum outro lugar; quero apenas descansar.
O desejo pelo descanso é a essência da depressão; nada mais tem encanto. Minha cabeça não está bem, tenho estado ausente, não consigo conversar comigo mesmo ou com quem quer que seja. A realidade está insalubre, e a fantasia que criei para me motivar e fazer companhia desmoronou. Não resta nada além de pegadas de um sonho na terra seca e poeirenta. Minha última esperança se foi. A depressão é cruel, e a dor é insuportável nas condições em que estou.
É difícil aceitar isso com lucidez, entretanto, estou em paz com a decisão. Talvez essa seja a essência da vida: escolher como ela termina, e já fiz minha escolha.
Preciso mesmo de um descanso, preciso muito. Este será meu último texto, meu último desabafo e meu último suspiro. Aceito que perdi a batalha; agora é apenas uma questão de tempo até a meia-noite chegar.
Um D.
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