Memória
- Me conte um momento feliz de sua vida, tente ser o mais detalhista possível. - Ela pergunta para Carlos, deitada em seus braços.
- Eu não consigo pensar em um momento específico em que tenha sido feliz. Não que eles não tenham existido, apenas não consigo me recordar de imediato.
- Faça isso, não precisa ter pressa. Apenas tente se lembrar. - Ela pede, acariciando o braço de Carlos.
- Tudo bem, vamos lá, mas desde o início então. Talvez seja mais fácil assim. - Ele fala mais para si mesmo do que para ela.
Não me recordo do dia de meu nascimento, ninguém lembra disso, na verdade. E talvez, a minha lembrança mais antiga, de que consigo lembrar, seja, também, a que sou mais feliz. Nela, acordo com o zumbido de uma mosca voando ao meu redor. Não a vi quando abri os olhos, mas continuava escutando o seu som.
Você se lembra da sua primeira memória? Ou a sua lembrança mais antiga, se preferir? Sei que um dia vou esquecer esta nossa conversa, e você também esquecerá. Mas não importa, porque nunca vou me esquecer de você, nem do que você me faz sentir. O que se passa em sua cabeça agora ou o que está sentindo, é com você. Mas para mim... é algo muito bom. E quero sentir isso o máximo possível enquanto estiver em sua companhia. Nos momentos mais simples é que sentimos mais prazer em estar com quem amamos; basta saber isso que a vida ganha um brilho mais bonito.
Enfim, continuando. O som da mosca me acorda, talvez seja o momento em que me identifico como 'ser' pela primeira vez, o momento em que ganho consciência de mim. Antes deste momento não havia nada, eu não era nada. Eu existia, é claro, mas não tinha consciência disso, logo, não existia.
Por mais que me esforce, não consigo lembrar de nada da minha vida antes disso. Então, acho justo pensar dessa forma. Entretanto, posso facilmente ser refutado nesta afirmação, caso alguém tenha interesse. Ao acordar, sabia onde estava e que estava sozinho. Talvez esteja misturando as memórias, já faz muito tempo, ou apenas incluindo algo que eu penso que deveria saber na época. Eu tinha noção de quem era e quem eram meus pais no momento em que despertei. Talvez, o certo a se dizer, é que deveria saber que existiam as figuras que cuidavam de mim. O conceito de 'pais' deve ter surgido depois e os inseri na memória. Saber dessas figuras é natural, até mesmo em bebês, ao menos eu acredito.
Estava em um pequeno casebre de madeira, com fendas entre as tábuas que deixavam a luz do sol entrar por elas. A porta do quarto era apenas um lençol preso pelas extremidades. Ele balançava levemente pela brisa que entrava por uma janela aberta no segundo e último cômodo. Não me recordo da mobília, mas sei que existiam. Eu estava deitado em uma cama, mas não sei dizer se era de casal ou de solteiro. Era uma cama... e isso basta. A mosca continuava com seu zumbido incômodo e não há lembrança nenhuma dela voando em ziguezague, apenas escutava seu som de um lado para o outro. Ela pousa em algum canto e o silêncio toma o lugar para si. Sem o zumbido da mosca, não havia nada além do silêncio. Hoje, provavelmente, teria um ataque de ansiedade com o silêncio que ocupava o lugar.
O dia estava quente, lembro disso, não do calor em si, mas toda a imagem da lembrança me faz acreditar nisso. Eu tinha uma vaga noção do tempo, não da hora do dia, mas do momento do dia. Sem pensar em nada, me levanto e saio correndo para fora da casa. Estou com os pés descalços e me vejo com alguma coisa da cor de barro, amarronzado, mas são apenas as cores que minha memória pinta nas roupas que cobrem meu corpo. Saio para fora e me ponho a correr através do capim que circundava o casebre. Ele ficava em um lugar alto, um pequeno morro no meio de uma área montanhosa do interior.
Hoje, ele já não existe, restou apenas o descampado. Na minha memória, quando lembro do local, o descampado que vejo ao redor da pequena residência é imenso, quase infinito na minha percepção. Certa vez, depois de adulto, tive a oportunidade de passar pela estrada que era o único acesso ao local e conduzia ao vilarejo onde fomos morar algum tempo após essa memória. Não restavam nem mesmo vestígios da existência do casebre, apenas o descampado está lá, ocupado por animais que pastavam tranquilamente. O descampado, outrora tão imenso, não era tão surpreendente como me recordava. A extensão era a mesma, é claro, mas eu havia crescido, a linha do horizonte, que se projetava à frente, já não era tão distante.
Algo que nunca esqueço é o motivo de sair correndo; estava indo atrás de meus pais. Não me recordo como sabia onde estavam, mas sabia e não vejo mais nada da memória depois disso.
Esta lembrança é a mais antiga que tenho. Simples, nada especial, mas uma lembrança. Não sinto medo nem tristeza relacionado a ela. Pensando agora, estes conceitos eram inexistentes para mim naquele momento. Felicidade também não existia. Hoje, é para mim, um momento feliz de minha vida.
Agora, a próxima é…
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