Nenhuma surpresa

Nenhuma surpresa

Estava compulsivamente olhando para o meu celular, esperando uma mensagem de uma certa pessoa que amo, mas sabia que a mensagem não viria. E, ainda assim, esperava. Isso me deixava incomodado, com uma pontada de tristeza no peito. Como se uma única gota de tinta preta tivesse caído sobre um tecido branco, se alastrando aos poucos, tornando-se uma mancha negra irreparável. Lembro de uma citação: "Ninguém tem culpa pelo que sente", de alguma obra de Carla Madeira, e isso valia tanto para mim quanto para ela. Não tenho culpa de amá-la, e ela não tem culpa por não me amar. Sei que estou iludido. Fiz questão de dizer quando era o meu aniversário, e o dia chegou. Eu sei que ela não vai mandar nenhuma mensagem. Deveria jogar fora esse aparelho idiota. Olho novamente. Nada.

Às vezes esqueço que o mundo é careta; ela não me manda mensagem por causa do namorado, eu sei que é por isso. Ele deve ser um completo idiota, ao meu ver, totalmente tapado. Sem ofensas. Mesmo assim, é ele quem está com ela e é ele que ela ama. Queria ser apenas uma gota de caos na vida dela, nada mais. Que continue com o tapado do namorado, mas que também me permita tê-la em meus braços. Não estou desejando muito, estou? Quem sabe ela não perceba que também poderia sentir alguma coisa comigo. Prazer eu daria para ela como ninguém jamais deu. Seria uma retribuição pela alegria que sinto perto dela, pelo prazer que sinto ao estar na sua presença. E daí que sou casado? Não sou careta como o resto das pessoas ou como ela. Aliás, o que mais existe neste mundo careta são casais de amantes. Ela não vai mandar mensagem. A mancha já tomou conta de todo o meu coração.

Recebi alguns parabéns hoje. De pessoas para quem sou importante e que gostam de mim, da minha família e de um ou dois amigos consideráveis. Algumas pessoas me surpreenderam; não lembro de ter, em algum momento, dito para elas quando era esse dia tão sem sentido. Mas recebi os parabéns e votos de felicidades mesmo assim. Alguns abraços também me foram dados. Sei que é apenas uma simples questão de cortesia e minhas redes sociais não acusam mais a data; faz alguns anos que ocultei. Não gosto de palavras vazias. E eles lembraram e, por algum motivo, acharam sentido em dizer algumas palavras. Outras pessoas me surpreenderam por não lembrar. Não importa, nunca me importei, na verdade.

Não me recordo onde ouvi ou li "O silêncio diz muito" ou seria algo como "O silêncio também é uma resposta", tanto faz. Cá estou, esperando uma manifestação da única pessoa que realmente me importa receber qualquer coisa no dia de hoje. Espero nunca conhecer o idiota do namorado dela. Estar com ela é tão maravilhoso que ela se tornou um pequeno raio de sol na minha vida, mesmo que finja não saber. Eu sei que ela sabe. Meu olhar denuncia meu amor transbordante. Mas não é o bastante, desejo mais, desejo a profundidade da existência que ela emana.

Não teve festa, nunca gostei e talvez nunca goste. Mas havia um pequeno bolo, alguns salgadinhos e doces trazidos por minha mãe. Ela tem se esforçado muito para recuperar o tempo em que foi ausente. Apenas durante toda minha infância. Meu pai junto dela e, como sempre, sem muita animação com o pequeno evento. Tenho muito dele no que sou. Às vezes, o culpo por isso. Minha esposa tinha um compromisso e havia saído. Não estamos mais tão satisfeitos um com o outro. Também não importa, não sou do tipo que se preocupa para onde ela vai ou o que faz. Tenho muito carinho por ela e sempre vou cuidar para que ela fique bem, isso não vai mudar, é da minha natureza. Minha filha mais velha estava com as amigas em algum passeio de adolescentes por aí. Tem muito do que sou nela e isso me preocupa um pouco. São sempre as piores coisas que se sobressaem, mesmo que as boas estejam juntas. Alguma coisa boa de mim ela carrega, eu espero. Apenas a minha filha mais nova estava conosco. Ela adora os salgadinhos de festa e foi ela quem pediu para a avó trazer. Não era nenhuma surpresa e ninguém cantou parabéns. Mas havia carinho no gesto, e isso importou mais do que eu esperava.

Procuro no aplicativo e encontro o nome dela. Olho nossas conversas; não tem nada de especial. Algumas mensagens formais de trabalho, uma ou duas mensagens mais significativas da minha parte. Nada claro, mas com sentimentos; nada claro para quem não sabe interpretar, mas ela sabe. Leitora voraz, conhece as palavras melhor do que ninguém. Compreende o que está por trás delas, das intenções, dos horários em que são escritas. Os horários dizem mais do que as palavras. Não tem isso nos livros, não sabemos em que horário os autores manifestam sua criatividade e seus sentimentos. Não dá pra ler isso. Nos dias atuais, as redes sociais registram os horários, e isso permite mais uma forma de ler através das palavras. De entender as pessoas. Um exemplo claro é acordar e ler, no dia que completa mais um ano, uma mensagem que foi enviada à meia-noite e um minuto. Mensagem longa, reescrita várias vezes, polida, apagada e simplificada. Levaria mais de um minuto para ser redigida, isso demonstra que ela estava sendo preparada há um bom tempo. Só se faz isso para pessoas que são importantes para o autor da mensagem; ele queria dizer que se lembra, que gosta, que deseja, que ama. É uma forma de dizer para quem está lendo como ela é importante para ele. Podem me chamar de louco, mas ler as intenções é importante.

Respiro bem fundo, tento afastar a imagem dela da mente, sei que não vai chegar nada, nem uma mensagem vazia. Não estou me sentindo bem com isso, é aceitável, estou apaixonado. Não, estou amando. A fase da paixão passou e, agora, desejo ela em minha cama e na minha vida. Será difícil, o amor mais difícil que já senti. Apago a nossa conversa, não quero esperar algo que não virá. Tentativa idiota de mudar alguma coisa dentro de mim, de esquecer. Não funciona e me arrependo. Não tem volta, assim como o dia que chega ao fim. Lembro que ela confessou ter achado difícil ler "Laranja Mecânica" e talvez não saiba ler as intenções como eu penso que ela sabe. Essa sensação está me fazendo muito mal, a mancha negra de tristeza já está em todos os poros do meu corpo. Mais difícil é parecer inabalável frente aos outros. Não sou forte, estou arrasado, completamente destruído, mas em pé e esboçando um sorriso. O esforço me cansa e só desejo cair na cama. Mas, se fizer isso, estou acabado, sem chances de sair do poço de tristeza que se forma e prende toda e qualquer vontade existente em meu ser.

Na segunda-feira, vou dizer o quanto a amo e o quanto é importante para mim, mesmo que ela não sinta nada ou, pior, sinta repulsa. Seria compreensível. Não importa, não quero mais esperar por algo que não virá. Ah, largaria tudo para ser o namorado idiota e brega dela. Usaria até uma camisa com as suas fotos. Sim, faria quase tudo, neste momento, para receber um abraço da minha pequena, do meu pedaço de raio de sol, e me ver livre da mancha negra de tristeza que se alastrou em meu ser. Isso ela não vai me negar e sei que o prazer e a felicidade que vou sentir farão faíscas emanarem de meu peito e meu sangue vai borbulhar. Preciso parar de sonhar e cuidar da minha saúde mental. Estou ficando louco. E nada disso é importante para ela.

Cheguei mais cedo ao trabalho, estava emburrado, sem motivos. "Ninguém tem culpa por sentir o que sente", eu pensei. Ela estava lá, como sempre, linda. Dei bom dia para os demais colegas, passei por ela e soltei um "bom dia" seco, querendo matar o sentimento que me fazia sofrer. Ela respondeu um "oi". Senti algo diferente na voz ou foi só impressão? O dia estava ruim, amargo, um daqueles dias em que não deveríamos ter saído de casa. Começava a pensar em pedir transferência e por culpa dela, da pessoa que mais amo. De nada adianta o amor se não podemos vivê-lo. É lindo, é gostoso, mas dói se guardado no fundo do peito. Tudo que mais queria era entrar na sala dela e dizer chega, não quero mais esse silêncio, eu te amo. Ela também tem seus problemas e me preocupo mais do que deveria. Queria apenas esquecer, apagar este sentimento horrível de ausência. Minha ansiedade era palpável. Tentei manter a calma, mas minhas mãos tremiam levemente, e percebi que não seria nada produtivo neste dia.

Um costume do local era que todos se sentavam juntos para o café no início da manhã. Ela, ao contrário, ia poucas vezes, sempre afirmando que já havia tomado café da manhã com a família em casa. Sempre a convidava, mesmo sabendo da resposta. Gostava de demonstrar que me importava com ela. Dessa vez não chamei, mas ela estava lá. Este momento é para todos um período de relaxamento, de conversa fiada e piadas sem graça. Queria evitar olhar para ela, de conversar, tentava fazer todo o oposto do meu desejo. Me sentia horrível com isso, mas não queria demonstrar fraqueza, mesmo que ninguém se importasse. No meio de uma conversa qualquer, ela me perguntou:

- Quantos anos?

Olhei para ela, não demorei a entender a pergunta. Nasceu um silêncio por alguns segundos que duraram uma eternidade. Seus olhos fixos nos meus. Não queria que os outros soubessem do que estávamos falando, não queria ouvir as palavras vazias vindo deles, e mudei de assunto de tal forma que até eu me surpreendi. Respondi:

- Terminei de ler "Tudo é Rio". Terminei ontem.

- Sério!? O que achou?

Havia alegria na sua voz. Foi o livro que ela me recomendou. Iniciamos uma conversa divertida, dei minha opinião, rimos um pouco e já estava me sentindo mais leve. O dia estava ficando mais bonito. Ela se retirou e foi para sua sala. Passaram-se alguns minutos e segui seus passos. Entrei na sala dela e a vi sentada diante do computador, séria, redigindo algum relatório.

- Vem cá! - Disse, soando quase como uma ordem.

- Ãh? O quê?! - Respondeu, surpresa e sem entender direito o que eu queria.

- Vem cá. - Repeti. E estendi a mão para ela em um gesto pedindo que se levantasse.

- Quero um abraço seu.

Ela entendeu, se levantou e nos abraçamos. Me senti o sujeito mais feliz do mundo por todo o tempo em que o abraço durou.

- Parabéns!

Sua voz soou doce em meus ouvidos. E uma alegria indescritível me invadiu, como a correnteza de um rio, limpando toda e qualquer mancha de tristeza que havia em mim.

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