O Peso das Circunstâncias

O Peso das Circunstâncias


Vou contar para você sobre ela. Peço que escute com atenção e não faça perguntas, apenas escute.


Morávamos no mesmo bairro quando crianças, e me tornei amigo dos irmãos dela. Os anos passaram, e, com as visitas que fazia à família deles, nosso envolvimento se tornou cada vez mais forte.


Com o tempo, nos tornamos aquele tipo de amigos íntimos que desabafam e buscam conforto mútuo quando não estão bem. Bastava um "Oi, pode conversar?" para eu saber que ela estava passando por algum problema. Provavelmente havia brigado ou terminado com algum namorado. Comigo era a mesma coisa. Quando eu não estava nos melhores dias, era ela quem me envolvia e me consolava. Conversávamos por mensagens durante horas, e a noção de tempo não importava.


Quando nos encontrávamos, era incrível, e tenho dificuldade de encontrar palavras que possam descrever o que sentíamos. Não importava a situação; esquecíamos as obrigações e nos divertíamos como duas crianças descobrindo os segredos do mundo e os prazeres do corpo. Ela ansiava por um orgasmo toda vez que nos deitávamos, e nosso gozo era intenso e prazeroso. Nosso envolvimento era perfeito, e sabíamos como satisfazer um ao outro.


Mas as circunstâncias existiam, e, aos poucos, se tornava cada vez mais difícil nos envolvermos. Seja pelo trabalho, pelos estudos ou qualquer outro motivo, o tempo entre cada encontro se tornava mais longo. Além disso, com o passar dos anos, já não precisávamos tanto do conforto um do outro. Mas, mesmo assim, desejávamos muito um ao outro.


Houve um período em que fiquei um ano viajando a trabalho e não nos vimos durante esse tempo. Também não trocamos mensagens. Quando, enfim, retornei, descobri que ela estava de casamento marcado.


Seu noivo era um cara legal. Eu havia estudado com ele e éramos bons amigos na época do colégio. Entretanto, não pude comparecer ao casamento por causa do trabalho. O tempo passou e não tivemos mais contato por um longo período.


Todavia, nosso envolvimento era anterior ao casamento e, de certa forma, mais intenso e sincero. E todos sabem como são os casamentos: há momentos bons e ruins. Com eles não foi diferente, e as brigas vieram, assim como em todo casamento. Ela, de praxe, sempre que estava insatisfeita, me procurava. Fiquei feliz quando ela me mandou pela primeira vez, após o casamento, um "Oi, pode conversar?", e respondi, de imediato, "Sim, posso sim". Eles não se entendiam muito bem, tinham muitas brigas, e, por causa disso, voltamos ao nosso envolvimento como sempre fora. Nada tinha mudado.


O tempo passou e iniciei minha faculdade de filosofia. Nessa época, conversávamos muito, e não me recordo direito de todos os encontros que tivemos. Minha memória referente a ela é, neste período, um tanto quanto confusa, e não sei o motivo.


Eu havia me formado quando ela assinou o divórcio definitivamente. Eu também estava passando por um momento ruim, assim como ela, e tivemos nossa primeira conversa séria sobre o que vivíamos naquele momento. Mas primeiro gozamos intensamente, como nunca antes. Não éramos mais jovens e o tempo nos trouxe maturidade para compreender que talvez fosse a hora de rever nosso envolvimento. Ou seria um relacionamento? Ela acreditava que era e questionou por que razão nunca vivemos como se fosse um. Falou que sempre me amou, desde criança, e que teria se casado comigo se eu tivesse pedido. Lembrou-se, feliz e nostálgica, de um dia em que visitei sua família, antes do início de nosso envolvimento, e que tinha ficado ansiosa pensando que eu a pediria em namoro. Desejou isso durante todo o tempo que permaneci com eles, ela confessou, e ainda estava desejando.


Eu também a amava, mas era jovem na época, inexperiente, e acabei acreditando que ela sentia apenas amizade por mim. Não me passou pela cabeça pedi-la em namoro e fiz outra escolha naquele dia. Quando, pela primeira vez, dormimos juntos, as circunstâncias haviam mudado de tal forma que só nos restou o caminho que trilhamos.


Tivemos uma longa conversa naquele dia, fizemos amor uma segunda vez, e, confesso, chegamos à conclusão de que não teria dado certo um relacionamento entre nós. O envolvimento que tivemos tinha sido a escolha mais correta até aquele momento. Nos divertimos com as lembranças e, no fundo, sentíamos que estava chegando ao fim. Passamos um longo tempo abraçados neste dia, e senti um prazer imenso de tê-la em meus braços, como nunca antes havia sentido. A beijei com muito carinho, acariciei seu rosto, senti a pele quente e macia do seu corpo ao meu toque. Deitei minha cabeça junto à dela, fechei meus olhos e desejei que o tempo parasse para sempre naquele instante. Ainda lembro o cheiro do perfume, leve e doce, que ela estava exalando. O toque da sua língua me excitava, e seus beijos imprimiam o que ela sentia por mim. Fizemos amor uma última vez naquele dia, e fui embora.


Não muito tempo depois, ela estava namorando novamente. Eu não conhecia o sujeito, mas, a princípio, o relacionamento era saudável, e fiquei feliz por ela. Em menos de um mês de namoro, eles estavam morando juntos. Não sabia o motivo, mas percebi que alguma coisa havia mudado.


Após ela entrar neste último relacionamento, conversamos apenas mais uma vez, e foi quando ela me mandou uma mensagem dizendo que ia ser mãe. Estava grávida de uma menina. Durante a conversa, conhecendo-a como a conhecia, sabia que havia algum problema. Perguntei se ela queria me encontrar, e respondeu que não. Mas confessou que havia discutido com o companheiro e que voltou para a casa de sua mãe. Entretanto, dessa vez, não queria se afastar dele, havia mudado, o amava, ia conversar para se resolverem e consertar as coisas. Desta vez queria uma família. Manifestei que queria o bem dela e que a apoiaria na decisão que tomasse.


Confesso que me senti um pouco triste, mas percebi que era egoísmo meu. Nosso envolvimento durou muitos anos, e eu estava habituado a tê-la, independentemente dos relacionamentos em que ela estava. Julgava que isso se manteria para sempre e nunca desejei nada além disso. Ela tinha sido minha confidente, amante e amiga durante tantos anos que nem lembrava mais, e, em qualquer situação, estava sempre pronta para receber meu amor. Isso bastava para mim, e, por causa disso, não percebi que não era o suficiente para ela. Ela sempre desejou mais; desejou meu amor, minha companhia, uma família ao meu lado, filhos meus. Queria sair de mãos dadas comigo na rua, passear no parque, me beijar em qualquer lugar e na frente de qualquer pessoa sem se importar com o que elas viessem a dizer. Mas eu não correspondia aos seus desejos.

Enfim, as circunstâncias às vezes são cruéis. No dia em que visitei seus pais e ela esperou ansiosa meu pedido de namoro, que nunca se concretizou, foi o dia em que conheci minha esposa.

Pensando agora, não sei dizer como teriam sido nossas vidas se tivesse ficado para o jantar naquele dia.

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