Silêncio

Silêncio


Hoje estou cansado, com dificuldades para pensar e escrever. Queria apenas dormir um pouco, aproveitando o frio que chegou junto com o mês de julho. O dia foi intenso; precisei deixar minha filha na aula de teatro e me atrasei para o início do trabalho. Dezenove minutos, foi o tempo que fiquei devendo para o relógio-ponto no período da manhã.

Acordei pensando na minha colega de trabalho. Estou apaixonado por ela. Elisa é uma esquisitinha linda. Amo ela. Sei que pareço grosseiro escrevendo isso, mas é que não me importo com a aparência dela. Me apaixonei por quem ela é, e faz tanto tempo que isso aconteceu que nem me lembro mais. Talvez seja errado falar em paixão e o mais correto seja falar em amor. Sim, amor, é isso que sinto por ela.

No trabalho, estou em uma posição hierárquica menor, e fico feliz com isso. Não quero ser acusado de assédio. Quando me apaixonei pela Elisa, ela era estagiária no trabalho. Na época, fiz a escolha de não falar nada. Nunca disse que havia me apaixonado, mesmo ela sendo solteira. Sentia, na verdade, que seria rejeitado e me calei. Hoje, ela não é mais estagiária, e atuo em uma posição de apoio ao trabalho que ela executa. Sou suspeito para falar, mas ela é excepcional no que faz. Eu tenho me esforçado para ser útil. Não que ela precise, é claro, mas porque eu desejo cuidar dela de alguma forma.

Ela concluiu o estágio, saiu e voltou para trabalhar conosco. Quando retornou, voltou comprometida; ela está namorando. Não que eu me importe com isso, até fico feliz em saber que ela tem alguém que gosta dela e não é tão complicado como eu.Entretanto, mesmo após tanto tempo, ainda a amo. Descobri que era amor quando, na primeira vez, escolhi guardar meus sentimentos para não atrapalhá-la. Agora, infelizmente, não tenho conseguido manter o espírito tranquilo. Desejo ela, durmo pensando nela, sonho com ela e acordo pensando nela. Minha vida está horrível, mas não consigo mudar. Ainda assim, desejo a Elisa. Hoje, entretanto, acordei disposto a falar para ela sobre meus sentimentos.

Desenhei toda a cena na minha cabeça. Criei introduções, imaginei conversas e como abordar o assunto. A oportunidade surgiu logo de manhã, quando tivemos que sair de carro. Nem havíamos tomado café ainda e já estávamos na rua; ela dirigindo. Falhei miseravelmente em falar qualquer coisa. É possível que nunca consiga falar. Às vezes, me arrependo e tento esquecer meus sentimentos. Mas basta encontrá-la para lembrar porque a amo. Ela é incrível como pessoa. Um pouco triste às vezes, mas muito divertida na maior parte do tempo.

Sei que criei uma imagem dela na minha cabeça, também sei que ela não é perfeita. Todavia, Elisa é fantástica como mulher, uma baita profissional e muito ética. Tanto que me bloqueou no perfil do Instagram dela. Tento fingir que não me importo e digo pra mim mesmo que é ela que está me perdendo. Sei que é mentira, me importo sim, mais do que deveria. Sei também que ela não se importa nem um pouco com meus sentimentos e que não sou nada além de um funcionário que tem a função de ser suporte. E ela se aproveita disso. Um dos seus defeitos é seu coração, duro feito pedra e frio como gelo.

Retornamos e, como disse, não consegui entrar no assunto. Fui direto tomar um café preto com um pouco de açúcar e comi duas fatias de pão torrado. Conversamos sobre alguns assuntos que não me lembro junto com os outros colegas. Rimos um pouco, como todas as manhãs, de algumas piadas de duplo sentido e conotação sexual feitas pelos demais. Não há mais nada importante que eu me lembre sobre a manhã. Fiz o meu trabalho, ela fez o dela.

No final do dia, saímos novamente juntos. Infelizmente, não tive coragem de falar nada outra vez. Para ser sincero, tenho acordado todos os dias com a mesma intenção. E todos os dias, não consigo falar. Todas as manhãs, penso em uma abordagem nova, um jogo de palavras, uma atitude mais ousada... mas nada acontece. Falho, miseravelmente, todas as vezes.

Ainda não sei como abordar o assunto amanhã, mas pensarei em alguma coisa antes de sair para trabalhar. Também sei que não conseguirei dizer nada outra vez.


Autor: D.

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