Sonho de criança

 Sonho de criança 


Eu queria ser escritor. Sonhava em ser escritor quando criança, na verdade. Mas, em algum momento, esqueci esse sonho de infância. Talvez tenha sido quando precisei trabalhar, por volta dos meus treze anos. Nunca esquecerei meu primeiro dia de trabalho. Minha mãe havia preparado uma marmita para mim e para meu irmão mais velho. Levamos também uma garrafa de água, outra de café preto e dois pães com margarina. Um para cada. Acordamos cedo, antes das cinco da manhã. Ainda estava escuro, um pouco frio, e o ar muito gelado.

Caminhamos juntos até o local onde embarcamos em um caminhão, às cinco e meia. Havia muitas pessoas e pouca conversa. O trabalho era pesado e, provavelmente, os mais experientes sabiam conservar a energia. Eu estava nervoso e com um pouco de medo; era minha primeira experiência de trabalho, e seria logo como boia-fria.

Fomos conduzidos até uma fazenda na região dos Campos Gerais. Não me recordo do tempo de viagem, mas demorou muito para chegarmos. Mediram nosso eito: um litro e meio de feijão para ser arrancado. Era pouco para um adulto, mas para duas crianças inexperientes, era muito. Muito trabalho, pouco dinheiro. Se pudesse voltar no tempo, pensaria seriamente em não passar por essa experiência outra vez.

O sol castigava incansavelmente. O cansaço chegou, os movimentos ficaram mais lentos, e o suor escorria por todos os poros do meu corpo. Minhas mãos começaram a doer, bolhas apareceram e tornaram-se feridas. O sangue era estancado pela própria poeira e sujeira das mãos. Quanto mais o tempo passava, mais fracos ficávamos, e mais difícil era continuar trabalhando. Minha camisa estava encharcada de suor. Meu irmão estava com o relógio de nosso pai, e lembro-me de ter perguntado as horas. Ainda não eram onze da manhã. Eu estava há uma eternidade arrancando feijão, e não era nem a hora de parar para almoçar. E nem metade do trabalho tinha sido feito. Pensava em desistir, mas não tinha essa possibilidade. Só podia continuar, e, se quisesse receber o pagamento, toda nossa área marcada deveria ser terminada. Olhava para frente e continuava. Não sei o que se passou na cabeça de meu irmão, mas dividimos as mesmas experiências: dor, sede, cansaço e mais dor. Ao fim, uma mísera recompensa. O dia foi longo; chegamos em casa por volta das onze da noite. Estávamos queimados pelo sol, completamente exaustos e muito doloridos. No dia seguinte, acordamos no mesmo horário; estava frio, o ar gelado. As marmitas, a garrafa de água, o café e os pães estavam prontos para nós. Caminhamos até o ponto de embarque, as mesmas pessoas do dia anterior, o mesmo silêncio, o mesmo trajeto em cima do caminhão. Agora, porém, sabia o que me esperava: dor, sede, cansaço, mais dor e uma mísera recompensa. Não havia empolgação, não era divertido, e me fechei em meus pensamentos, assim como todos os demais.

Neste ritmo diário que se seguiu, a criança que outrora sonhava em escrever já não mais conseguia pegar no lápis. Sonhava, agora, com a imensidão das plantações de feijões e acordava suando no meio da noite, com medo da hora de levantar.

Passaram-se mais de vinte anos e, de repente, sonho novamente em ser escritor. Minhas mãos não doem mais. Minhas costas, infelizmente, sim. Mas não importa. Hoje, começo a traçar estas linhas mal escritas, mas com esperança de um dia concretizar o sonho da criança que habita em mim.

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