Um poema para viver mais

Aviso de Conteúdo: Este poema aborda temas sensíveis relacionados ao suicídio e à saúde mental. Se você ou alguém que você conhece está passando por dificuldades emocionais, procure ajuda. No Brasil, ligue para o 188 (CVV - Centro de Valorização da Vida), disponível 24 horas por dia, sete dias por semana.



Um poema para viver mais

Sento na privada.
Sinto a merda saindo.
Escuto ela cair.
Espirra água na louça.

A merda fede.
As moscas se agitam.
O suor escorre na têmpora.
É merda que não acaba mais.

A descarga leva tudo.
O fedor fica no ar.
As moscas, agitadas.
Pensamentos confusos.

O silêncio inunda tudo.
Não existe mais nada.
Estou sozinho.
Eu e o fedor.

A água gelada.
O sabão esfregado nas mãos.
Ralo abaixo.
O tecido áspero que seca.

Não é a hora.
Ainda não.
Um café primeiro.
Puro, sem açúcar.

Quantas vezes mais?
Lágrimas que eu não tenho,
que não vão cair.
Não existe alívio.

Não existe preparação.
Nada sai ou respinga.
Não fede como merda.
Ninguém virá.

Nunca foi pelo café.
Sempre foi a desculpa.
Sem medo ou indecisão.
Sem exibição.

O silêncio rompido
não é um trovão.
O sangue respinga.
Um corpo sangrando pelo chão.

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