Sonhos de uma mente perturbada
A sala era silenciosa, quebrada apenas pelo tique-taque do relógio de parede. O caderno aberto diante dela atraía sua atenção.
— O que você quer fazer? — perguntou a voz calma.
— Eu queria escrever alguma coisa.
— “Alguma coisa” é muito vago. Se pensar assim, pode escrever números e seu desejo estará completo. O que você quer fazer?
— Eu quero escrever. Eu quero ser escritora.
— E o que você quer escrever?
— Eu não sei... alguma coisa.
A voz insistiu, firme:
— Já disse: se continuar pensando assim, não chegará a lugar nenhum. O que você quer escrever?
Laura respirou fundo.
— Certo. Eu quero escrever histórias legais, criar mundos, transmitir sentimentos para quem lê. Quero ser uma grande escritora de sucesso.
O silêncio se prolongou antes da resposta.
— Já é um começo. Mas tenho a impressão de que você ainda não sabe como fazer isso. Estou errado?
— Um pouco. Eu já escrevo algumas coisas... poesias, contos. Eles surgem de repente e eu coloco no papel. Mas ainda são rasos, sem impacto. Tudo parece rascunho, nada transmite sentimentos de verdade. São ruins.
— É isso que você pensa? O que falta nos seus textos para que sejam bons?
— O que falta? Tempo... talvez. E estudo também. Preciso dominar melhor minha língua materna para embelezar o que escrevo. Acho que isso já ajudaria.
— Tempo é essencial. Sem ele, não há escrita. Quanto ao domínio da língua, pode ser fundamental ou não. Dependerá de para quem você escreve.
— Eu não sei para quem escrevo. Talvez não tenha público. Pelo menos, não ainda. Talvez nunca tenha.
— Pode estar certa... ou completamente enganada. O que a faz pensar assim?
Laura hesitou.
— Tenho medo de escrever coisas sem graça e de ser julgada por isso.
— Medo? Medo de quê, exatamente?
— Bom... meus poemas, meus contos... Não conheço métrica nenhuma. Quando comecei, estava apaixonada. No fim, escrevia sobre meus sentimentos. Meus contos também. Não consigo escrever nada que não seja sobre mim. Isso me incomoda. Sinto que não passo de uma idiota escrevendo um diário.
— Entendo. E o que acha que pode fazer para mudar isso?
— Praticar mais. Escrever mais. Preciso de tempo e concentração. Mas no momento, não tenho nada disso.
— O mais importante é saber o que se quer. Você tem um objetivo: fugir de si mesma dentro da própria escrita.
— Eu não sei como fazer isso.
— Não precisa saber como, apenas que é preciso. Continue tentando e encontrará uma forma.
Laura suspirou.
— Consegue me dar alguns conselhos?
— Sim. Talvez não sirvam para nada, mas posso te dizer algumas coisas. Primeiro, me conte como são seus contos.
— Como falei, parece sempre que estou escrevendo sobre mim. Quando crio um personagem, sou eu quem está lá. Comecei relatando memórias, acontecimentos da minha vida. Quando percebi, era como meus poemas: desabafo puro. A paixão que sentia influenciava tudo. Escrevia sobre ela porque a garota que amava era impossível para mim. E até hoje alimento aquela esperança, mesmo sabendo que não deveria...
— Calma, você está se dispersando. Evite falar de sentimentos agora. Foque na pergunta sobre seus contos.
— Desculpe.
— Não se desculpe. Evite fazer isso de agora em diante. Precisa trabalhar sua autoconfiança, e se desculpar a cada instante não vai ajudá-la.
— Vou tentar... mas é difícil. Sempre me desculpei por qualquer coisa pequena.
— Continue. Sobre os contos.
— Sim. Minha maior dificuldade é não ser a personagem central. Eu acredito que um escritor de verdade não deve escrever assim. Eles criam, mostram mundos, personagens cheios de vida e experiências. Eu, por outro lado, sempre volto para mim, mesmo nas tentativas de ficção.
O relógio marcou a hora. A voz pigarreou.
— Seu tempo acabou por hoje. Vamos marcar a próxima sessão, Laura.
— Mas... e meus conselhos? Não vai dizer nada?
— Hum... cinco minutos de bônus. Escute com atenção.
Ele ajeitou os óculos e começou:
— Primeiro: aceite que todo começo é autobiográfico. Quase todo escritor passa por essa fase. Kafka, Clarice Lispector, Bukowski... todos transbordaram de si antes de se afastar. Isso não é erro, é treino.
— Depois, transforme o “eu” em personagem. Pegue uma memória ou emoção sua e altere: mude o cenário, troque o gênero, coloque em outra época. Você ainda estará escrevendo sobre si, mas de forma ficcionalizada.
— Faça exercícios de deslocamento: escolha um sentimento — medo, paixão, raiva — e entregue-o a alguém completamente diferente. Um idoso, uma criança, uma criatura mítica. Pergunte-se: como essa pessoa sentiria isso?
— Leia autores que admira não só pela história, mas pelo modo como constroem frases, como revelam sentimentos.
— E, por fim: escreva sem pensar no público. A ideia de agradar trava. O primeiro leitor é você. O público vem depois.
Laura ouviu em silêncio.
— Estabeleça pequenas metas. Em vez de “quero ser uma grande escritora”, tente: “vou escrever um conto de duas páginas esta semana, com um personagem que não seja eu.” É assim que o ritmo vem, e o peso desaparece.
Ele fechou a pasta, seco.
— Agora, saia. Tenho mais pessoas para atender.
Laura hesita por um instante:
— Tá. — Ela se levanta e sai da sala. Ao fechar a porta, sente um misto de esperança e tristeza.
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