Por um brilho no olhar
Faz quatro anos que a amo. E, nesse tempo, seus olhos castanhos nunca brilharam ao me ver. Era notável a frieza com que me tratava. Eu não queria aceitar. Sorria, fingia estar bem. Sonhava que, em algum momento, isso mudaria.
Um ser útil enquanto necessário; inútil todo o resto do tempo. Não, nem sequer existia quando não era necessário.
Ela percebeu meu amor, e isso a deixou cruel. Não havia empatia, consideração ou qualquer gesto de afeto. As palavras que me encantaram no início deixaram de ser ditas da mesma forma. Já não tinham calor, não eram aconchegantes e feriam como lâminas de gelo.
Ela me usou como uma bota para pisar na lama em dias chuvosos. E doía. Cada sorriso, cada abraço, cada palavra não dita doía ainda mais. Mas o que mais dilacerava era saber que seu amor era entregue a outro.
O ciúme corroía meu coração e meus pensamentos. Um buraco se abriu em meu peito e foi preenchido por confusão, tristeza, ansiedade e lágrimas.
Lágrimas, o único alento para corações partidos. Elas não deixam que o amor se torne ódio. O amor é mais forte: é promessa de esperança… promessa de ilusão.
Eu me agarrei a cada gesto, cada palavra, por mais distantes, cruéis e frias que fossem. Em algum momento, eu sabia, seus olhos castanhos iriam brilhar.
Muitas noites passei deitado no escuro, olhando para o teto e pensando:
"Por quê? Por que eu a amo tanto? O que ela tem? O que ela faz? O que ela é? Por quê?"
E as lágrimas faziam meus olhos brilharem, mesmo no escuro, pensando nela.
E chegou o dia em que as noites mal dormidas, a falta de apetite e o excesso de lágrimas cobraram seu preço. As roupas estavam cada vez mais largas. Não, meu corpo é que definhava. Descuidara de mim e perdera a saúde. O resto da sanidade que ainda havia chegava ao limite da existência. Eu não viveria mais um mês.
Por uma graça, talvez divina ou talvez apenas coincidência, ela partiu. Eu havia tentado me afastar, mas era impossível aceitar ficar longe dela por vontade própria. Ela, por sua vez, sequer notou minha presença antes de partir. Não disse adeus. Estava ocupada com algo mais relevante e simplesmente se foi.
O impacto foi angustiante. Senti as garras afiadas e sujas da decepção no meu rosto magro, pálido, coberto por uma barba por fazer. Elas cravaram fundo, rasgaram a pele. As lágrimas se misturaram ao sangue, e o alívio que costumavam trazer não veio.
Muitas coisas passaram por minha mente. Recusei todas elas. Queria sentir a dor, deixá-la fazer parte do que sou. E fingi que estava tudo bem. Porém, não estava.
Continuo sendo perseguido pela imagem do par de olhos castanhos que nunca brilharam ao me ver. Olhos tristes, solitários, incompreendidos por todos que cercam a dona deles. Meu erro foi compreendê-los e querer salvá-la.
Desde o primeiro dia, eu soube: ela era tão infeliz quanto eu.
Um, amando e querendo ser amado.
A outra, sendo amada e fugindo do amor.
E hoje, um par de olhos azuis brilhou para mim, mesmo sem que eu tivesse qualquer utilidade para eles. Foi o suficiente para perceber o quão cruel é amar. Os olhos azuis anseiam por amor. Desejam ser amados, reconhecidos, saciados.
Sinto pena deles.
Meus olhos não brilharam de volta.
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