São dias chuvosos de outono

 São dias chuvosos de outono

    O canto de pássaros nas copas das árvores é ouvido à distância. Carlos, sentado em frente ao computador, responde algumas mensagens a uma pessoa importante que pode mudar os rumos do seu trabalho. Sentindo leves dores nas costas, mais desconforto do que dor, propriamente dita, ele para de digitar para ouvir os pássaros. Um leve suspiro escapa por suas narinas e boca. Ele se perde nos pensamentos, dividindo-se entre a possível transferência e o que irá fazer para o almoço.

    Cozinhar nunca foi um hobby para Carlos, embora fosse prazeroso. Ele encarava a tarefa sem questionar e até sorrindo. Ele vai até a cozinha e sente um arrepio por todo o corpo ao entrar. Sua visão fica turva, embaçada, e tonturas o fazem cambalear. Com a mão direita, tenta se apoiar na mesa, mas ela não está onde deveria, e sua mão passa direto. Ele não toca o piso gelado, como era de se esperar, nem mesmo o tapete de fios brancos que ganhou de presente de sua mãe.

    Ainda sem enxergar, Carlos sente seu corpo mergulhado em água. Ela entra em suas narinas e em sua boca, e instintivamente ele prende a respiração. Seus olhos abertos não veem nada, apenas a escuridão. Desesperado, tenta subir em direção ao ar, mas, desorientado, não sabe para onde nadar. O ar escapa e cria bolhas que descem em direção aos seus pés. Ele não as vê, mas as sente descendo. Ele vira seu corpo com braçadas e nada para baixo. Não, nada para cima.

    Sua mão abre espaço por entre as águas e toca o ar; logo em seguida, sua cabeça emerge. Com um grande “Arrfff!”, Carlos tenta recuperar o fôlego. Mais alguns segundos debaixo d’água e ele perderia a consciência. Respirando com dificuldades e agitando os braços e pernas para permanecer com a cabeça de fora, seus olhos não conseguem identificar nenhum sinal de luz em lugar algum. Olha para cima, e a escuridão é completa. Olha para frente e para os lados, é a mesma coisa. “Será que estou cego?!”

    O pânico se instaura na mente de Carlos, e ele não consegue assimilar a ideia de que há poucos minutos estava no conforto de sua casa. Agora, seu corpo se debate para permanecer acima da água, completamente na escuridão. Ele grita por socorro:

    - SOCORRO!

    O eco retorna: “Socorro!... socorro!... corro!... ó!...”

    O eco se vai, o silêncio retorna e faz a espinha de Carlos gelar. “E se tiver algum animal na água? Preciso sair daqui.” Ele, então, lentamente começa a se mover, puxando a água com as mãos e evitando fazer barulho. O pensamento de não estar sozinho ali, de que alguma criatura o atacaria a qualquer momento, ativou um estado de alerta máximo em seu corpo. Silenciosamente, ele prosseguiu, mal fazendo barulho ao respirar. Por vezes, nem mesmo respirava. Seus olhos estavam fixos e arregalados, percorrendo o ambiente freneticamente, como se procurassem uma saída.

    Passado algum tempo, e sem perder o ritmo lento e cauteloso, a ponta dos seus dedos não encontrou a água vazia, mas sim uma resistência sólida. Houve um sobressalto breve, uma quebra momentânea na cadência da respiração. Um alívio saiu com o ar. O antebraço roçou o que parecia ser a lateral de uma parede submersa. Os dedos, flexíveis e exploradores, rapidamente se fecharam em torno da borda. O ângulo era abrupto, definindo um limite claro entre a água livre e a estrutura maciça. Ele percebe a alga fina e escorregadia cobrindo a superfície. As mãos tateiam a rocha, buscando um ponto de apoio. Um novo calafrio percorreu seu corpo da cabeça aos pés. Ele sente algo atrás de si.

    Ele puxa o corpo com muita força, os músculos tremendo e queimando na pressa. Seus joelhos e pés subiram, cambaleando na busca histérica por qualquer apoio firme que o tirasse da água. Ele sobe a rocha e rola para o lado, indo o mais longe possível da beirada que o separa do que quer que possa estar lá, nas profundezas. Carlos não foi muito longe. Antes mesmo de terminar uma volta completa com o corpo, ele se choca com uma parede de pedra. Uma nova borda. Não, ainda é a mesma, ainda é parte da borda. Ele subiu apenas uma rocha e agora sabe que pode ir mais longe, ainda longe da água. Porém, no momento, está a menos de meio metro dela.

    Ele mal consegue respirar, a boca aberta, aspirando o ar ralo. O som de sua própria respiração nas proximidades da superfície era alto e desagradável, e ele não queria produzir som algum. Temia que denunciasse sua presença a qualquer coisa que estivesse na escuridão. Gostaria de parar todo o movimento de seus órgãos e ficar em completo silêncio, igual à rocha onde estava. Ele tenta escutar se alguma coisa se move na água. Nada. “Será que foi minha imaginação por causa do medo?”

    Se pudesse voltar no tempo, ele não teria gritado por socorro. Se pudesse voltar no tempo, ele sequer teria saído da cama pela manhã. Seu corpo estava rígido e tenso, como se pronto para fugir ou lutar a qualquer instante. Ele se encolheu ligeiramente, numa tentativa subconsciente de se proteger. Suas mãos tremiam, e ele as apertou em punhos cerrados na tentativa de controlá-las. Ele mal se atreveu a respirar, prendendo o ar nos pulmões.

    Agora, em segurança, ele começa a digerir o que aconteceu. Não achou nenhuma explicação de como foi parar ali. Ele tentou subir a parede, mas era alta e lisa demais para escalar. Poderia voltar para a água e nadar contornando a borda, porém, não tinha coragem. Seu corpo, sua mente, todos os seus instintos o impediam. Carlos não escutava, mas sentia que algo estava lá, o esperando. Durante o tempo que ficou ali, pensou ter escutado, por várias vezes, algo roçando a rocha. Ao mesmo tempo, tentava se convencer de que não era nada. Se chegou em segurança até ali, significava que não havia nada lá. Forçou a vista até cansar, em tentativas inúteis de distinguir alguma coisa na escuridão, até que desistiu.

    Muito tempo se passou, e ele continuou ali, encolhido e abraçado aos próprios joelhos. Precisava fazer alguma coisa, achar uma saída. “Vamos, pense em algo. Pense em algo. Não faz sentido isso aqui. Meu Deus, o que é esse lugar?! Por que estou aqui? Preciso sair daqui.” Ele estava com fome. Muita fome, e apenas agora percebia isso. Mas, não tinha o que comer. Percebeu, também, que estava com a bexiga cheia e precisava urinar. Isso podia fazer, porém, ao pensar no som que faria, hesitou. O suor frio brotava em sua testa, apesar do ar frio.

    Mais algum tempo passou. Não podia mais segurar. Levantou-se devagar, apoiando-se na parede de pedra que o impedia, mas também o sustentava. Andou devagar até o limite da rocha onde estava. Por algum motivo, não queria de forma alguma urinar na água e decidiu despejar o jato de mijo na rocha, evitando assim que fizesse qualquer som alto demais. Lembrou-se, também, neste momento, de quando visitou os pais de uma antiga namorada. Na casa deles, quando foi ao banheiro, urinou na borda da louça, evitando fazer barulho. Ele perguntou para a mãe dela onde ficava o banheiro. Todos ouviram. Então, por que esconder o que iria fazer?

    Enquanto se perdia nesses pensamentos, sentiu que alguma coisa quente e peluda se enrolava em seu corpo. Era tarde demais para escapar; já estava completamente enrolado por ela. Se debateu e gritou desesperado, até que ambos caíram em direção à água.

    A aterrissagem não foi dolorosa, mas sim surpreendentemente macia e constrangedora. O corpo não atingiu o chão diretamente; em vez disso, ele estava preso, imobilizado e emaranhado em um casulo espesso. A coberta, que até então oferecia conforto, havia se transformado em um emaranhado sufocante. A cabeça girou levemente com o impacto. Por um segundo, ele não sabia onde estava ou o que havia acontecido. Seus braços estavam presos ao corpo. Ele sentia o peso opressor do tecido sobre seu rosto e a pressão quente do edredom em volta de suas pernas. O cheiro familiar de lençóis limpos e um calor residual de sono o cercavam. O chão, duro e frio, pressionava uma pequena parte da sua bochecha através da dobra da coberta. A consciência lentamente se infiltrou: ele ouviu o som da própria respiração ofegante, sentiu o cheiro da poeira do chão, e finalmente reconheceu o objeto alto e macio pairando acima dele: a lateral de sua própria cama.

    Com um resmungo rouco e confuso, ele percebeu. Ele não estava mais na cama; ele estava ao lado dela, uma larva humana indefesa, enrolada e imobilizada no centro do quarto. O peso do cobertor impedia qualquer movimento rápido para se libertar.

    Ainda mais constrangedor foi perceber a umidade nas pernas e no edredom. Em seguida, veio o odor, sutil a princípio, mas inconfundível. Um cheiro pungente de urina.


Comentários